Em busca da banda menos feia

Aconteceu em questão de horas. Se bobear, foi coisa de minutos até. Nesta capacidade fantástica de copia- cola-repassa que só as redes sociais permitem, foi instalada uma virose quase que instantânea intitulada "Oração - A banda mais bonita da cidade". No meu facebook ou twitter, não foi diferente da maioria dos brasileiros. Quem abriu a sua timeline durante aquele período e nos dias que se seguiram, viu dezenas de amigos reproduzindo e saudando o incrível clipe da incrível música apresentada pela banda paranaense. Eu, assim como você e outras milhares de pessoas, dei o play, apenas para terminar o vídeo coçando a cabeça. O quê exatamente de incrível existe naquele clipe, além da visível alegria dos envolvidos com o que estavam fazendo?

Com uma melodia simplista e uma letra mais repetitiva  e simples ainda, o grupo se filmou a cantar celebrando a arte com amigos, no maior climão à la Beirut. E pra quê o escândalo virtual, gente? Agora, com a poeira baixando e as redes sociais menos infestadas do tal vídeo, eu consigo olhar com mais calma e entender tamanha saudação. Afinal, não tá fácil pra ninguém no cenário musical brasileiro, colega. Nós sofremos uma escassez angustiante de qualidade musical no Brasil - e ouso dizer isso, mas só posso falar do alto dos meus vinte e tantos anos de vida - como nunca se viu antes. 

Em tempos onde Caetano Veloso concorre a prêmio de melhor cantor ao lado de Fiuk, Luan Santana, Michel Teló e Pe Lanza (da gloriosa Restart) - e eu não estou inventando isto! - A banda mais bonita da cidade é lucro, gente. "Oração" é incrível, pois traz na letra "penteadeira" e não frases que terminam com "desejo" e "beijo", para rimar. O clipe é tão maravilhoso, pois não é um picotado sem fim de flashs de gente na balada rebolando umas com as outras. As pessoas são tão fantásticas, pois não são adolescentes vestidos com calça skinny nas cores do arco-íris. É gente querendo fazer um som, mesmo que sem orçamento - e aqui não vou nem falar da qualidade musical - e não gente produzida pra ser garoto-propaganda de refrigerante quando a música do grupo virar hit, muito menos cantora de axé que posa pra caixa de shampoo tonalizante.

A banda mais bonita da cidade, é a mais bonita...porque é a menos feia. Então, está perdoada a histeria coletiva. Tá todo mundo sedento por algo que soe - mesmo que em um longínquo horizonte como o som do  pessoal do Paraná - com música de verdade. Aliás, lanço um desafio: quem conseguir fechar uma mão com artistas de qualidade que atingiram algum sucesso no país nos últimos três anos, ganha um ingresso para ver A Banda mais bonita da cidade. Isso, claro, se alguém conseguir lembrar deles daqui há uma semana. E digo isso já pedindo perdão pela maldade. Mas no fundo, no fundo, você sabe que só compartilhou esse vídeo porque não tem nada melhor acontecendo. Aqui entre nós. Confessa, vai? ;)

A-DORO: Michele White

 Existe algo dramático e, ainda assim, infantil nas ilustrações da americana Michele White, que utiliza tinta, grafite, papel texturizado e madeira para criar suas produções.  Os personagens, com os olhos grandes e melancólicos, são produzidos com base em tons pastéis e muito contraste de sombras, o que dá esse visual incrível e único. Morando na Califórnia, Michele já foi escalada para ilustrar inúmeros livros e produtos e você pode conferir mais trabalhos da artista no blog dela.





Conto inacabado

E tudo não está, de fato, inacabado, mesmo que a vida chegue realmente ao fim? 

Fosse eu uma pessoa com a mínima sensibilidade para mentir de maneira convincente, inventaria alguma boa desculpa para este conto estar inacabado. Melhor. Ainda faria uso deste mote para me locupletar, dizendo que estou lançando um novo gênero literário. O primeiro conto não-acabado da história da literatura, a maior afronta à escrita linear - sem início, meio e fim – a inovação que consegue, por fim, emergir fazendo com que esta história fique no ar e continue, infinita, para deleite do público que ousar preenchê-la com os seus próprios finais. Eu poderia. Mas as mesmas mãos capazes de escrever ficção não são capazes de escrever mentiras. A mim este dom foi negado - extraído da minha genética - e me considero menos privilegiada do que aqueles que conseguem ter a mentira como aliada. 

Pois bem, eu não vou tentar enganar você, leitor, dizendo que você lerá uma história completa. Tanto que, para poupá-los do serviço de seguir mais um parágrafo nesta enrolação, aviso logo nas primeiras linhas que esta história não irá levá-lo a lugar nenhum, muito menos deixá-lo com alguma lição para pensar no fim do dia. Não tenho personagens, nem enredo, nem um ápice na trama. Escrever um conto inacabado talvez seja a maior liberdade que alguém possa ter. Eu vou terminar quando eu quiser. Onde a preguiça me pedir para parar, assim sem avisar. Nem a você, nem a ninguém. 

Se você insiste em continuar por estas linhas, é porque assim como eu e esta história, encontra-se com tanta coisa inacabada em sua própria vida, que não vai fazer mal acabar um conto inacabado. Pelo contrário, já é um começo. Um anúncio de que somos capazes de sermos finitos em algo. Aos mais ansiosos em manterem-se fiéis à causa inacabada, aviso que finalizar um conto que não tem fim é o menor dos problemas. Afinal, terminar uma história escrita por terceiros, não significa terminar nada na sua própria vida. De certa forma, é um atraso. Uma desculpa esfarrapada, um desvio no percurso rumo à tarefa de acabar as coisas que você deixou pendente.

Estamos então todos no mesmo complô. Eu fingindo que tenho algo para escrever, você fingindo que tem algo para ler. E nós, passando o tempo, como quem não tem nada mais para fazer. Não é bom assim?

Do engano rebuscado

Enganou-se. Não uma nem duas, mas todas as vezes. Enganou-se sobre si. Enganou-se sobre os outros. Era tanto engano, que nem sabia que o engano, de fato, era a vida que vivia. Foi tão enganada que, ao dar-se conta, teve medo de não ser quem achava que era. Temeu por toda a história que havia escrito até ali. Temeu que os conhecidos fossem estranhos, e que até seu nome fosse outro. Sentiu-se vivendo uma farsa. Mas por não ser uma farsa lá assim, tão ruim, acomodou-se. Para quê, de fato, ir buscar a verdade? Com que propósito queria ela ser a precursora do inédito? Enganou-se sim, mas quem, respirando entre o céu e a terra, não vive enganando, a si mesmo e aos outros? Quem de nós quer saber, de fato, da insignificância própria ou alheia? Logo percebeu que se deixou ser enganada, pelo seu próprio bem e pelo bem de todos, e que não era crime entrar no jogo. Fingiu ter uma vida, fingiu ter um emprego, fingiu ser talentosa em algo, fingiu que queria ver o mundo, fingiu que foi útil aos outros, fingiu que amadureceu e fingiu que sua vida fez algum sentido. Tudo para enganar a morte. A única que, esperta como ela só, nunca se engana.

Da delicadeza

Tem coisas na vida que a gente perde o costume. Esquece que um dia fez parte do vocabulário ou do dia a dia. Aí, quando acontece de vermos na nossa frente, rola um espanto. Como se você estivesse cara a cara com um bicho em extinção, passando assim na sua frente, um “mico leão de juba azul turquesa”, aquelas coisas que você acha que são raras e corre para pegar uma câmera e registrar. 

Eu não sei em que momento da minha vida a gentileza passou a ser esse bicho extinto - que eu via com tanta freqüência quanto via um ano bissexto – mas ela voltou a fazer parte do meu cotidiano, desde que cheguei a Londres. E acostumada como eu estava com uma vida, por assim dizer, de “gentileza-free”, eu estranhei no começo. 

Acho que a culpa deve ser da educação secular que paira entre os ingleses, mas os dias são seguidos de demonstrações da tal gentileza em extinção. Do senhor idoso que faz questão de se levantar para oferecer seu lugar no metrô a uma mulher jovem que está de pé (que obviamente não aceita, mas vale o gesto), às dezenas de “obrigados” e “desculpas” que escuto por dia, passando pela preciosa pergunta “tudo bem com você?”, que gente que mal me conhece faz questão de fazer em algum momento apropriado. 

De sorrir e cumprimentar pessoas quando você está passando pela rua, simplesmente porque você quer deixar claro que enxerga o outro, à paciência ordeira na hora de enfrentar o rush do metrô, passando pela menina desconhecida que parou e me ofereceu o próprio celular, pois notou que eu estava com dificuldades em completar uma ligação no telefone público. 

Dos programas dos museus (que custam uma libra) e ficam expostos para qualquer um pegar, apenas com um cofrinho para colocar o dinheiro do lado - porque as pessoas confiam umas nas outras -, ao carro que pára a rua para você atravessar, pois percebe que você vai perder o ônibus se não correr. 

E eu não acho que isso seja exclusividade de um povo ou de um país, mas que em muitos lugares não estamos mais acostumados com a gentileza, isso não estamos. E sempre me comove. Do tipo “cara, não é que tem gente que ainda faz isso?”. E você quer retribuir. E eu não sei como a gente pode viver sem. E é bom. E a gente acaba voltando a acreditar nas pessoas.